Em um mundo onde um número muito grande de instituições venera o poder e o bem-estar econômico, a Igreja mantém-se como a fortaleza da palavra, um local onde as ideias ainda importam. E poucas vezes as palavras foram usadas com mais poder do que pelo Papa Francisco na sua majestosa Laudato Si’. Eu passei várias semanas trabalhando nela, já que escrevi uma resenha para a New York Review of Books, a principal publicação estadunidense sobre cartas. Mas tenho a impressão de que vou relê-la muitas vezes em minha vida.

É claro, a eterna questão continua sendo como fazer com que as palavras se tornem realidade. E a conferência do Vaticano “Laudato Si’ e os Investimentos Católicos” nos oferece uma oportunidade extraordinária. Se realmente quisermos “reduzir drasticamente” as emissões de carbono nos “próximos anos”, como tanto o Papa como os cientistas recomendam, precisamos começar por reduzir o poder da indústria dos combustíveis fósseis.

Sabemos que essa indústria passou décadas tentando encobrir a verdade sobre as mudanças climáticas. Importantes investigações nos Estados Unidos, por exemplo, mostraram que a maior empresa petroleira, a Exxon, foi informada por seus próprios cientistas, no final da década de 1970, de que o planeta estava aquecendo de maneira rápida e perigosa. Mas em vez de compartilhar essa informação, a empresa — e seus colegas do setor — esconderam os avisos.

Esse tipo de comportamento continua até hoje. No mundo todo, a indústria dos combustíveis fósseis financia políticos que retardam a realização de ações. Isso porque o seu lucro depende de explorar suas reservas, que contêm cinco vezes mais CO2 do que os cientistas acreditam que pode ser queimado com segurança. O plano de negócios dessas empresas cria um planeta onde os mais pobres morrem de fome enquanto suas plantações minguam, onde refugiados fogem de cidades inundadas e costas que desaparecem, e onde o mundo natural que fomos encarregados de administrar perde incontáveis criaturas que Deus colocou entre nós.

Em resposta, o maior movimento de desinvestimento da história cresceu para pressionar por mudanças. Ele começou com um toque religioso — o vencedor do prêmio Nobel e arcebispo anglicano Desmond Tutu recomendou o uso dessa ferramenta (que ajudou a derrubar o apartheid na África do Sul uma geração antes) na luta contra o que ele chamou de o maior desafio de direitos humanos do nosso tempo.  O seu chamado foi respondido por instituições religiosas e seculares de todo o mundo, desde os funcionários do fundo de pensões da Califórnia até o Conselho Mundial de Igrejas. As instituições católicas já desempenharam um importante papel: a Universidade de Dayton, nos Estados Unidos, foi uma das primeiras a unir-se a esse esforço, seguida por outras, como Georgetown. Elas foram seguidas por defensores como Trocaire e as Irmãs Franciscanas de Maria, por dioceses brasileiras e pela Sociedade Missionária de St. Columbam, por Passionistas da Nova Guiné e do Vietnã, pelos ativistas católicos franceses contra a fome, por fiéis católicos de todas as partes.

Mas agora é o momento para ações mais grandiosas e centralizadas, seguindo a liderança do cardeal Turkson, que afirmou durante o lançamento da Laudato Si’ que “um exame genuíno de consciência reconheceria não somente as nossas falhas pessoais, mas também nossas falhas institucionais”. Colocando de maneira simples: aqueles que estão tentando ganhar dinheiro com o superaquecimento do planeta estão falhando no teste de administração. Como cardeais católicos, patriarcas e bispos de todo o planeta disseram em um importante manifesto, em 2015, aos representantes na Conferência sobre o Clima de Paris, nós precisamos “colocar um fim à era dos combustíveis fósseis”. Essas palavras são sérias, e elas deveriam ter consequências claras para as políticas de investimento do Vaticano e de outras instituições católicas.

Muitos alegaram, de maneira convincente, que existem fortes razões econômicas para desinvestir, já que a indústria dos combustíveis fósseis começa a cambalear diante do desafio imposto pela indústria de energias renováveis. E, realmente, aqueles que desinvestiram colheram ganhos financeiros. Mas, ao menos para as instituições religiosas, essa não é a razão pela qual o fizeram. Como o diretor da Universidade Católica de Dayton disse, em 2014, quando retirou os US$ 600 milhões da instituição que estavam investidos em combustíveis fósseis: “não podemos ignorar as consequências negativas das mudanças climáticas, que afetam, de maneira desproporcional, justamente as pessoas mais vulneráveis do planeta”.

2016 foi o ano mais quente já registrado, superando o recorde estabelecido em 2015, que, por sua vez, já havia deixado para trás o recorde estabelecido em 2014. 2017 precisa ser o ano em que bateremos recordes de ações, de cuidado. O ano em que nos superaremos por transformar palavras em realidade.

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