Por Nathália Clark

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Com suas mensagens carregadas de tolerância e solidariedade, o Papa Francisco tem conseguido derrubar as mais conservadoras estruturas da Igreja Católica. E com a força de suas palavras, ele também vem ajudando a demolir as sólidas bases de um sistema econômico ultrapassado e falido, fortalecendo o caminho rumo a um novo modelo de desenvolvimento.

Destacando a importância da causa ambiental e trazendo para o cerne do debate público a preocupação com a “Casa Comum”, a Encíclica Laudato Si, lançada em junho de 2015, jogou luz sobre uma frente de batalha há muito preterida pela Igreja. A partir dela, diversos grupos e indivíduos da Igreja uniram-se ao movimento global de combate aos principais emissores de gases do efeito estufa: os combustíveis fósseis. Na América Latina, a adesão do segmento religioso à campanha que pede a retirada de investimentos em fontes poluentes de energia, como o petróleo, carvão e gás, tem ganhado força.

No Brasil, em outubro passado, a Diocese do Divino Espírito Santo de Umuarama, no Paraná, foi a primeira diocese e a primeira instituição da América Latina a aderir ao Desinvestimento. Além de iniciar o processo para tornar-se a primeira diocese de baixo carbono, substituindo as fontes de energia existentes por energias renováveis como a solar, a Diocese comprometeu-se a não aplicar seus recursos em fundos que financiam projetos com combustíveis fósseis.

“Não podemos nos acomodar e seguir permitindo que interesses econômicos que buscam o lucro antes do bem-estar das pessoas continuem ditando nosso modelo energético. Sabemos que o Brasil conta com fontes abundantes de energias limpas e renováveis que não agridem a nossa Casa Comum”, frisou o Bispo da Diocese, Dom Frei João Mamede Filho. Segundo ele, o comprometimento com o desinvestimento, que significa deixar de financiar empreendimentos que poluem, degradam e emitem gases causadores do aquecimento global, é um dos caminhos práticos para se alcançar o que propõe a Laudato Si.

De lá para cá, diversas ações já foram encampadas nesse sentido. Com o apoio da 350.org, foram realizadas capacitações e palestras de conscientização junto aos membros da Igreja sobre os impactos do aquecimento global e a importância do incentivo às fontes renováveis de energia. Nas edificações paroquiais e casas de formação tem sido implementado um plano de eficiência energética, com autogeração de energia solar e geração de biogás através de resíduos orgânicos. Os membros da Diocese também têm incentivado outras pessoas da comunidade a repetir esse modelo nas indústrias, comércios, escritórios e residências, visando a independência energética e a redução de emissões de gases do efeito estufa.

Padre Jailson João da Silva, Coordenador Diocesano da Ação Evangelizadora da Diocese de Umuarama, afirmou que a missão a partir de agora é inspirar outras instituições a seguirem o mesmo caminho. “Aquilo que se coloca como ação concreta ajuda a mostrar a outras paróquias e dioceses que esse é um projeto viável, que pode de fato ajudar a cuidar da nossa Casa Comum e assegurar a vida no nosso planeta.” Com seu grande poder de articulação e mobilização, a Igreja Católica exerce uma profunda influência espiritual e cultural, ajudando a moldar a mente e as ações de pessoas em todos os cantos do mundo.

Para Reginaldo Urbano Argentino, coordenador da campanha de Desinvestimento da 350.org Brasil, a adesão da Igreja Católica é fundamental para que o movimento ganhe força globalmente. “É uma mudança de paradigma para a Igreja. A iniciativa da Diocese de Umuarama já é um exemplo para instituições no Brasil, na América Latina e no mundo. Seguiremos com a campanha de conscientização e formação, para que cada vez mais pessoas sejam convertidas pela Laudato Si e possam ajudar a adotar um modelo de desenvolvimento mais justo, livre e sustentável, cuidando do nosso bem maior, que é a vida no planeta.”

Segundo ele, encíclicas anteriores já falavam sobre ecologia, mas só o Papa Francisco conseguiu trazer o conceito da “ecologia integral”, que significa praticar o cuidado com o ambiente de forma integrada entre todos os setores da sociedade. No Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), organismos da Igreja Católica, começou-se a discutir essa mudança de pensamento. Nos dois últimos anos, a CNBB trouxe para a sua Campanha da Fraternidade o tema das mudanças climáticas, da conservação dos biomas e do cuidado da Casa Comum.

Grupos setoriais da juventude e outras comunidades religiosas, como as escolas do grupo Marista e o Centro Educacional Unicesumar, o maior do Sul do país, também estão aderindo ao movimento, que terá um de seus principais momentos no próximo mês. De 05 a 13 de maio, em todo o mundo, acontecerá a semana de Mobilização Global pelo Desinvestimento.

Na América Latina já foram registradas ações na Bolívia, na Universidade Católica Boliviana, e Argentina, na Universidade de Buenos Aires, onde será realizada uma palestra do Frei Eduardo Agosta, sacerdote da Diocese de Lomas de Zamora e docente do curso de pós-graduação “Variabilidade Climática e seus impactos”, sobre mudanças climáticas, energias renováveis e a necessidade de desinvestir dos fósseis. Cerca de 40 estudantes já confirmaram participação, interessados no chamado para a Mobilização Global pelo Desinvestimento. Também estão previstas vigílias pelos impactados e refugiados do clima em diversas regiões do continente.

No dia 6 de maio será realizada na catedral da Diocese de Umuarama a Grande Vigília Climática pela Criação. Estão previstos momentos de oração e prece por aqueles que já estão sendo fortemente afetados pelo aquecimento global, que perderam suas casas, suas famílias e muitas vezes também a fé por conta de catástrofes ambientais causadas pelo alto nível de poluentes jogados na atmosfera.

As pessoas mais vulneráveis, os mais pobres, são geralmente os primeiros a sentirem na pele os efeitos dos males provenientes da ganância da indústria fóssil. Juntos, fiéis e não fiéis irão pressionar para que esse modelo que beneficia poucos em detrimento de muitos seja rapidamente substituído. E para que se inicie agora a transição dos combustíveis fósseis para energias limpas, livres, renováveis e acessíveis a todos.

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